
QUE WOLVERINE É ESSE?
Agora é fácil para as novas gerações gostarem de Wolverine: ele é um anti-herói cinematográfico. Não sou daqueles que acha que o cinema acabou por enterrar de vez os heróis ao usarem a licença poética para criar blockbusters milionários e que muitas vezes fogem à adaptação literal das Histórias em Quadrinhos (HQ). Creio que toda arte tem sua forma de ser e ver o objeto artístico. E assim, recebi com o entusiasmo a primeira aparição nas telonas do Wolverine de Hugh Jackman no filme X-Men (2000).

Não estou aqui para analisar o filme, mas duas coisas me chamaram à atenção (e de qualquer bom fã do canadense pavio curto): 1. Hugh Jackman é um grandalhão de 1,88m, nada a ver com o baixinho que estava acostumado; 2. e cadê a ação sanguinária, ágil e sem meias-palavras do herói? Claro que o herói sofreria ao longo dos anos uma evolução vertiginosa nas telonas até ser o Logan de minhas leituras na adolescência, até ser velho e morto no seu derradeiro (até que se prove o contrário) filme: Logan (2017). Ainda é preciso levar em conta que os efeitos especiais ainda não eram sofisticados para deixar esse herói ainda mais “foderoso”. Claro que o filme Deadpoll e Wolverine (2024) responde ao meu desejo de violência e efeitos especiais, porém está repleto de humor ácido, destoando da postura de poucos amigos do herói.

No entanto o processo de humanização da fera interior de Wolverine, tensão que perpassa cada ato desse personagem nos quadrinhos, ao contrário do que aconteceu nos cinemas, foi um processo demorado e que ainda é latente no Logan até em suas histórias atuais. Ele sempre lutará contra seu lado animalesco, como todos nós lutamos contra nossos instintos mais primitivos. Mas enquanto a fera brutal, Wolverine, nasce como inimigo do Hulk no gibi Incredible Hulk 180 (1974); Logan, seu alterego atormentado e desmemoriado, tem sua gênese humana ligada à minissérie Wolverine (1982). É justamente sobre última obra que falaremos.


A capacidade de catarse, a identificação com o personagem, quando se é adolescente é bem clara: todo jovem é, em seu íntimo, uma pessoa solitária, principalmente os nerds. Da mesma forma, todo adolescente gostaria de responder com fúria a tudo aquilo que não concorda em sua família ou em sua sociedade. Mas Wolverine não é jovem. Ele já nasce velho no quadrinhos, se comprado aos demais X-Men da formação original (Ciclope, Jean Grey, Fera e Homem de Gelo) ou mesmo a formação dos Uncanny X-Men da edição Giant-Size 1 (1975), edição em que o canadense estreia na escola para “jovens mutantes” de Charles Xavier. Quando ingressa na turma do Professor X, divide as missões com Tempestade, Colossus, Noturno, Apache e Ciclope. No entanto ainda é o vovô da turma: desajustado, sem sentimento de equipe e de um passado envolto em mistério. Mas sua primeira minissérie mudaria o rumo das abordagens do herói nanico.

DO CARCAJU AO “NINJA”
A ideia para a criação de Wolverine viera justamente de um animal baixinho e abusado. O editor Roy Thomas, responsável pela primeira aparição do canadense enfrentando o Hulk, revela a origem do nome do herói: “O personagem veio de minhas pesquisas sobre os carcajus (wolverines)… Eles são animais pequenos e selvagens, de garras afiadas, que não se incomodam de enfrentar animais bem maiores. Achei que isso daria um bom personagem”.

Quando a dupla Chris Claremont e Frank Miller receberam um projeto de aventura solo do Wolvie, ele já era um herói peculiar há oito anos. Já era um X-Men e conhecera, em uma das missões da equipe no Japão, Mariko Yoshida, por quem desenvolveu uma afeição instantânea. O romance começou com o medo da japonesa devido a aparência selvagem de Logan, mas aos poucos essa barreira era vencida e, entre idas e vindas de Mariko aos EUA. O amor entre os dois só cresceria ao longo do tempo.

“É uma chance de mergulhar no background dele, na herança japonesa, nos conflitos entre a fera, o guerreiro e o homem, de descobrir o que o define, o que é verdadeiro para ele. Foi apresentando essa visão a Frank e vendo se era algo com o qual ele podia se relacionar que a usamos como ponto de partida para a história”, afirmou Chris Claremont sobre sua perspectiva de história.
A ideia da dupla sempre fora ter uma abordagem inovadora daquela apresentada normalmente nos número regulares de X-Men. Em colaboração com o artista John Byrne, Chris e Miller resolveram explorar, na minissérie Wolverine (1982), a psique conflituosa do carcaju da Marvel. “Nós apresentamos esta percepção de Logan. Para John, ele era um assassino com dedo no gatilho, contudo, após a morte de Jean (Grey, a Fênix, mostrada em 1980 na clássica X-Men 167), Wolverine pareceu abraçar Mariko com bastante naturalidade. O que o atraiu à ela? O que o atraiu à ele? O que fez com que Charlie (o líder dos X-men, Professor X) sentisse que aquele sujeito podia se misturar com a galera-X?”, revela Chris Claremont.

EM BUSCA DA HONRA (Spoilers!)
“Sou o melhor no que faço, mas o que eu faço melhor não é nada agradável.”
Essa é a fala badass com a qual se inicia a minissérie em quatro edições: Wolverine (1982). Falta bastante humildade, mas tem muita verdade nessa citação. Ela acaba por sintetizar quem é Logan. É um cara que dá conta do recado, mesmo que isso lhe tire toda chance de felicidade.

Depois de uma temporada no Canadá caçando um urso assassino, fera versus fera, ao retornar a Nova York se depara com todas cartas enviadas à Mariko devolvidas pelos correio. Após ter seus telefonemas não atendidos, decide ir ao Japão para investigar. Descobre que com o retorno do desaparecido pai da moça, muita coisa mudou na vida de sua amada. O pai, Shigen Yoshida, tinha uma dívida de honra e a deu em casamento a um crápula que a espancava. E como se não bastasse, Shigen possui uma sede de poder para dominar tanto o submundo quanto o alto escalão do imperador japonês.

Após invadir a mansão, dopado por um veneno desconhecido que lhe privava de seus sentidos mais aguçados, Wolverine acaba por ser derrotado e humilhado pelo pai de Mariko e ainda revelando seu lado animal e desonroso aos olhos da amada. Deixado na sarjeta, é salvo pela misteriosa, independente e sensual Yukio. A afinidade entre os dois é imediata: ambos são independentes, indomáveis e tem uma fúria mortal. Desenvolvem, então, uma relação: possessiva por ela; superficial para ele que ainda ama Mariko.

Para salvar sua nova companheira, Yukio, Logan decide livrá-la de uma suposta ameaça. Na verdade ela trabalhava para Shigen e incitou Wolverine a eliminar um rival nos negócios do pai de Mariko em pleno teatro. Mais uma vez, Mariko presencia o lado selvagem e assassino de Logan e o abismo entre os dois se intensifica.

Com a morte de Asano Kimura, policial e amigo, pelas mãos de Yukio, Wolverine resolve restabelecer sua honra. Descobre que o veneno misterioso, que dera vantagem a Shigen na primeira luta entre os dois, partira das lâminas de Yukio. Assim o carcaju começa a sabotar os negócios mafiosos de Yoshida, até o momento final no qual, com a ajuda inesperada de Yukio, salva Mariko e enfrenta Shigen em uma luta justa e honrada. No desfecho, sua amada descobre as trapaças do pai, Yukio desaparece e Wolvie envia um convite de casamento aos amigos mutantes.

HAPPY END (Conclusões)
Tudo bem que o final é folhetinesco e os escritores românticos do século XIX adorariam ou mesmo os autores de novelas das nove. Mas não é só o final que nos lembra a prosa romântica: a cada edição da minissérie, os autores nos atualizam dos poderes e astúcias do herói fazendo com que, mesmo que não tenha a história completa à disposição, não deixe de aproveitar a trama. Na conclusão das três primeiras edições, fica sempre um gosto de “quero mais”.

A minissérie explora o lado mais humano de Logan, mostrando sentimentos tenros e de carinho e seu grande paradoxo: uma fera capaz de amar e matar sem limites. Também revela que o caminho para a honra é tortuoso, muitas vezes atormentado, mas que a superação é sempre a melhor recompensa. O caminho nem sempre será agradável, mas é preciso ser o melhor naquilo que se faz. E Wolverine é o melhor.
Publicado, originalmente, em NerdComet News (19/07/2019)

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